As penas de uma história escandalosa

tribuna janta

Escândalos não são novidade no Brasil. Pelo contrário – ainda que não carreguem nobreza digna da lembrança, fazem parte da nossa história desde o descobrimento, narrados em registros que remontam do império, República e ditaduras. Nos tempos atuais, apesar da espetacularização que eleva o escândalo ao status de reality, onde delações são ansiosamente aguardadas e seus desdobramentos acompanhados em tempo real, fica evidente que não evoluímos, apenas foram atualizadas as práticas que seguem penalizando os mesmos neste nosso meio milênio de história: o povo.

Pensemos nos índios e negros, agredidos pela nossa história. Até hoje, o Brasil é incapaz de reparar o prejuízo social e cultural revertido numa dívida para com gerações. Na modernidade de contextos atualizados e lógicas repetidas, ao atacar direitos dos trabalhadores a cada capítulo inglório dos nossos escândalos atuais, a Pátria se mantém de olhos fechados às consequências de resolver a vida de poucos às penas da exploração de muitos.

Sem rebobinar demais a fita, vale a reflexão sobre os casos mais recentes, a começar pelo esquema deflagrado entre Carlos Cachoeira e José Dirceu, que extorquiram milhões de bicheiros, bingos e loterias. O caso foi resolvido pelo governo, não com a repressão às práticas e esquemas de corrupção, mas com a proibição dos jogos, inviabilizando um setor inteiro e desempregando mais de 320 mil trabalhadores.

Outras ilicitudes milionárias vieram à tona com o mensalão. Corruptos e corruptores seguiram a vida, enquanto os fundos de pensão e os Correios foram depredados. Na Lava-Jato, empresários passaram à condição de delatores de uma teia de atividades ilegais envolvendo contratos e favores às custas de mais prejuízos ao erário público. Na base da pirâmide, mais milhares de trabalhadores acabaram demitidos, enquanto uns seguem soltos, na salvaguarda do foro privilegiado e outros presos, porém, devolvendo migalhas.

E os empregos? Não poderiam os trabalhadores – engenheiros, arquitetos, administradores, pedreiros, maquineiros, soldadores, todos eles! – seguir contribuindo com o país no exercício do seu ofício, tirando do papel as rodovias, portos, plataformas ou hidrelétricas e não apenas pagando religiosamente os seus impostos?

Sobre os trabalhadores recai, mais uma vez, a pior punição em decorrência dos desacertos da nossa história de escândalos. Não pagamos com cadeia, prisão domiciliar ou especial. Não temos foro privilegiado, nem privilégios de qualquer sorte. Pagamos com o próprio emprego, com nossos direitos sendo postos à bancarrota e com a dignidade, atacada dia após dia, até que o povo deixe de ser invisível à cegueira – que deveria ser meramente simbólica – da Justiça.

 

Clàudio Janta

Presidente estadual do Solidariedade RS